domingo, 24 de abril de 2011

PONTO DE INFLEXÃO

É  incrível  como o tempo passa e a história se repete, já faz quase vinte anos que eu acompanho a imprensa e com especial interesse pelas matérias ligadas aos taxistas de São Paulo. E sempre estamos com a mesma cantilena, de certo modo dá pra entender, afinal jornalistas pertencem a uma parte da sociedade que sabe valorizar o conforto que representa o taxi  e  ao mesmo tempo, como todos nós, sempre estamos pleiteando os melhores serviços pelo menor preço.Quem sabe chegamos, também neste aspecto, a um ponto de inflexão.

Está claro que não se pode esperar que a mudança venha da classe jornalística, afinal eles estão como todos nós ,  aprisionados em uma visão de sociedade que nos divide em duas categorias simples, mas que carregam em seu interior um antagonismo insuperável. Ou seja estamos divididos em Consumidores e Investidores. Como consumidores queremos sempre o melhor pelo menor custo e como investidores os mais altos juros que se possa  conseguir. No caso, os consumidores do serviço de taxis simplesmente fazem o que fazemos todos quando vamos a feira e pechinchamos pelo preço das verduras ou dos legumes. Não sei quem e nem quando foi, que nos  meteram esse chip na cabeça, o único que sei é que devemos tentar  nos livrar dele.

Em matéria da Veja SP de 20 de Abril, ¨taxistas cobram taxa de chamada e agendamento¨, a jornalista utiliza a retórica de consumidor e produto esquecendo-se que, pra que este consumidor em especial possa ter acesso a este produto, o taxista de qualquer cooperativa é acionado com  até uma hora de antecedência pra atender  um agendamento. Com certeza este consumidor deve conhecer a máxima: Tempo é Dinheiro, e sem dúvida que concorda com ela. Além do mais só pra dar uma informação,  em alguns agendamentos essa hora de antecedência é usada pra chegar até o endereço do consumidor que pode estar a vários quilometros de onde  sai o taxista. Entendo que a jornalista não saiba disso e que, como escreve majoritariamente pra consumidores, tão pouco tem interesse em buscar esses dados. Com a taxa de chamada acontece algo parecido, quando éramos  todos taxistas de rua e as cooperativas eram duas en toda São Paulo e alguém precisava de um taxi tinha que ir  pra rua principal do bairro e dar sinal pro primeiro que aparecesse, podia ser um Opala  ou um Fiat 147 e todos contentes. Hoje somos todos modernos e sabidos , conhecedores e merecedores  do máximo conforto, queremos um taxi grande, com ar-condicionado e que nos dias de chuva nos recolha na garagem do prédio e tudo isso a troco de nada.

O mais lamentável  é ,que  os que nos deveriam defender não o fazem, presidente de sindicato, presidentes de cooperativas não são capazes de articular uma resposta pra que se modifique o modo de pensar, ou seja, esta na hora das pressões acontecerem ao revés. Ao invés de pressionarmos um trabalhador pra que faça mais por menos, deveriam os consumidores pressionar seus superiores pra que lhes paguem o que merecem, pra que eles possam ter mais qualidade de vida e a partir daí distribuir riqueza, fazendo girar a economia.

A matéria da Veja SP segue, mas pra que esta entrada não se torne  cansativa fico por aqui, volto em uma próxima entrada pra concluir. Saúde e sorte  a todos. Sidney.

martes, 19 de abril de 2011

BUSCANDO UM RUMO

Incrível  mundo este dos  blogs, pra ser sincero estou  totalmente perdido. Ontem  a noite buscando  sem rumo pela  rede dei de cara com um tal  blog da cidadania, de um pessoal que se intitula blogueiros progressistas.
Causou-me uma certa estranhesa que alguém ou alguns possam  apropriar-se de condições ou características, que jamais  poderiam estar restritas a um grupo. Pelo que pude  ler das postagens e dos comentarios, estão todos alinhados  com um certo pensamento político, portanto  eu deveria concluir  que  os cidadãos que são progressistas estão todos  ali  e que o restante que não comunga  com  as idéias  que esses  cidadãos  expõem,ou não são progressistas ou pior, não são cidadãos.
Deixei  ali um comentário light, algo parecido com um monge  aposentado tentando encaminhar essa gente boa pelo caminho  do budismo , que aprendi   lendo as orelhas dos livros do Dalai. Fui solenemente ignorado como era de esperar,  de todos os modos seguirei  minha busca  na tentativa de dar um  rumo pra este meu triste blog.
Também  estive  xeretando  no blog anareczek.blogspot.com  e  como  nova  paulistana  ela  se sai  de maravilha, dá  dicas  pra  os  que  queiram  aventurar-se  pela cidade  e  sacou  umas  fotos  pra  lá de boas  das  estações  de trem  da marginal pinheiros.  Seria ela cidadã?  Eu  creio que sim e não  me importa  quais sejam seus pensamentos  pois essa condição  nos é inerente a todos.
Fica pendente  o rumo que vou dar  ao meu blog, só agora me dou conta  da  defasagem que  trago, pois sou produto de um tempo e quem  sabe  estou fossilizado  e  não  me  dei conta ainda.  Espero  que não.

domingo, 10 de abril de 2011

UM SONHO

Não é mais que uma sombra,  seguramente estou dormindo  e isso é um sonho.Tenho certeza que essa sensação já deve ter ocorrido a qualquer um de voces. Faz parte da gente, vem junto com a codificação dos genes.Não, eu não estou louco ou alucinando.Me levanto e fico uns minutos sentado na beira da cama, faz um pouco de frio, mas estou suando.Já sei,  é o começo de uma gripe; tomo uma aspirina e volto pra cama.
Hesito um pouco em fechar os olhos, confesso que tenho medo.Medo de algo que  não é mais que uma sombra.Bem, todos sabemos que a sombra se produz pelo efeito da luz em algo sólido, real, daí que temo a essa sombra.

Não  quero dormir, não quero fechar os olhos, mas o dia foi largo, um desses dias que só de vez em quando acontecem; dez horas de trabalho, um montão de corridas e nenhum problema.Só isso já deveria valer uma noite de sono bem dormida.Tento pensar meu dia, refazê-lo desde seu principio só pra enganar o sono.Mas, como era de se  esperar perco a batalha e num instante me vejo no alto de uma montanha, é um fin de tarde, ainda dá pra ver o sol se pondo, sobre uma rocha ovalada há um homem sentado que comtempla o lento e luminoso poente.

Caminho  em sua direção, mas estranho, não me aproximo. Peço ajuda baixinho não sei bem porque , quando surge ao meu lado um homem que me estende a mão. Já não sou adulto, sou o menino que fui  e me socorro dessa mão caridosa. Dá pra sentir os calos de uma mão de trabalhador, tento ver seu rosto, mas não consigo. Penso em umas mãos parecidas que conheci faz muitos anos.

De novo me encontro sozinho e o por do sol parece ir em marcha lenta,  diante de mim se abre  um caminho  uma estreita alameda que leva ao homem da rocha. Ele segue ali impassível  como a esperar por mim,  dessa vez saio correndo, mas afobado que sempre fui,  tropeço em meus passos de menino  e caio sem avançar um metro sequer.Choro, choro e choro e do nada outra vez surgem aquelas mãos rudes  que  me secam as lágrimas,sinto seus calos como carícias e seus dedos por entre meus cabelos.Me recomponho pra agradecer-lhe a atitude, não lhe vejo o rosto e quando tento falar não consigo. Será possível que não vou conseguir agradecer a esse homem o imenso conforto que ele me esta dando nesse sonho tão intenso?Pois é , ele já desapareceu outra vez.

Me sinto cansado  e me deixo cair sobre o gramado que tenho ao meu redor, um estranho e familiar  gramado, como o de minha casa na infância.Mas já não sou mais o menino, agora sou eu e minha rugas, meu pouco cabelo e meu corpo cansado. Cansado e triste, triste como seus olhos naquele dia. Tantos anos vivendo juntos e só agora me dou conta de que jamais tivemos uma troca direta de olhares, de palavras  nem digo,pois parecem ainda mais difíceis.  Mas naquele dia, naquele instante nossos olhres se encontraram.

Passava da meia-noite e o Pronto Socorro estava lotado, ele seria levado até  a ambulância pra buscar um hospital com um leito vago, foi nesse trajeto que nos cruzamos, ele numa cadeira de rodas e eu  aturdido e incapaz, ele chorava e seu olhar me pedia algo, seu último olhar , meu único olhar.
Agora o homem da pedra se levanta e vem em minha direção, conheço esse andar e agora advinho sua figura. Ele me abraça  forte,  como nunca nos abraçamos, penso dizer-lhe algo, mas não consigo. Sinto como se devesse lhe pedir desculpas, mas ele me sorri e se fasta, antes de desaparecer se volta e me acena.  Tchau pai, um dia a gente se vê.