Como seria bom se a caneta soubesse o caminho e sem que eu precisasse empunha-la, num desenho suave ela explicasse meus sentimentos. Lamento!, me disse ela, seia pedir-me demasiado.Empunha-me e seja o mais fiel que possa ao que quer que haja dentro de voce.
É que as vezes eu me sinto oco, um aluvião mudo de imagens que se amontoam e não as consigo explicar. Nessas horas vejo o muito que perdi por preguiça, quanta falta me faz a habilidade que não soube captar das leituras juvenis.
Não, não pense assim,sou caneta e creio que a mim me honrarás com seu desenho em letras e se lhe posso dar um conselho, melhor que não se aproxime da beleza retórica, nuitas vezes vazia e sem compromisso.Busque encontrar-se com algo que não queira encontrar e o descreva sem sentir vergonha de si mesmo, ou medo dos que porventura lhe possam ouvir.
Caramba, quanta sabedoria existe em voce.Talvez por um descuido,quando as travas que nos impomos me deixem de vigiar, eu possa ser capaz de falar da pequenez do meu destino.Destino de taxista, com certeza a função que mais gostei de fazer pra poder sobreviver e olha que fiz umas outras tantas coisas. Umas mais comodas e bem vistas e outras nem tanto e embora se diga que todo trabalho é digno,sabemos todos, que em uns, mais que em outros , existe mais "dignidade".
O fato é que sempre me senti cómodo pelas ruas da cidade e também é verdade que a maioria do tempo eu estava só. Eu e meus sonhos, uma realidade paralela que não sei a quantos deste planeta lhes sucede.Não acabo de compreender se é uma enfermidade ou um presente de um deus brincalhão. Só sei que é assim que é, passa o tempo, se acumulam as rugas e voce segue impassível com seus devaneios.Da boca pra fora parece que a realidade é o seu domínio e quem se esbarra e troca pensamentos sai com a impressão que encontrou um ser consciente do mundo em que vive. Mas só voce sabe, sem saber, a incrível alucinação que embala seus dias.
Dias de sol, dias de chuva e por falar em chuva lembro-me de um dia. Um final de tarde de um verão em 98 ou 99, um chamado da Rádio a que ninguém contestava e de repente por um curto circuito cerebral eu acreditei que poderia atendê-lo.Zona Oeste, escritório da Bordon, próximo da ponte Anhanguera, chovia forte, mas é como eu acabo de dizer, entre a alucinação e a necessidade de ganhar o dia, eu, por conhecer bem a região me meto a sei lá o que e enfrento quarenta minutos de chuva pra atender esse bendito chamado.
A zona é de cheia, junto do Tietê, entro no pátio do frigorífico e me deparo com uma rua alagada; hoje em dia eu penso, porque? Se seria mais fácil ter ido pra um lugar seguro, ou até mesmo pra casa, como muitos o fazem. Creio que jamais vou saber explicá-lo. Primera engatada,embreagem ao meio,acelerador no fundo e os segundos se fazem infinitos, mas ao final, eu passei.Me esperam tres pessoas um casal de mexicanos e um homem brasileiro, com o carro mais pesado e mais baixo tenho que voltar pelo mesmo caminho, não há outra saída.
Em nenhum momento me passou pela cabeça que eu poderia ficar ali, parado no meio do alagamento e ainda por cima com mais tres pessoas. Gente que dependia de mim, que de maneira quase tão insensata como eu, entregava sua integridade pessoal nas mãos de um completo estramho.Éramos quatro habitantes do planeta com a mesma herança ancestral e arriscávamos nossos destinos.Seria isto , humanidade?E não uma quantidade inexata de humanos, mas sim um destino compartido como espécie? E novamente, acelerador até o fundo, embreagem ao meio, primera engatada e um silêncio de dar mêdo dentro do Fiesta .
Prometo a mim mesmo que jamais farei nada nem de longe parecido. A água avança pelo capô, sua cor amarelada e sua textura barrenta deixam marca nos vidros laterais, o silêncio de dentro do carro é cortado pelos ruídos guturais dos meus passageiros e o que parecia que não se acabaria,de repente desaparece, saimos da massa de água ilesos e renovados.
A partir daí , todos aliviados, me dizem pra onde querem ir. Deste momento em diante voltamos todos a ser o que somos,esse pequeno interlúdio, onde nossas histórias pareceram se confluir se esfumou sem deixar rastro ou vestígio e eu voltava a ser um taxista entre os milhares que existem em São Paulo e do qual , meus tres passageiros já se terão esquecido antes do jantar.
domingo, 20 de marzo de 2011
domingo, 13 de marzo de 2011
ZEBRAS E LEÕES
O ano era 1991 e por incrível que possa parecer um alvará de taxi valia 600 cruzeiros, eu digo incrível porque às vezes nem eu mesmo acredito nisso. O certo é que isso era pouco dinheiro se comparamos com o que passa hoje. Não quero e nem posso entrar no terreno dos economistas, essa gente sabida que do alto de suas torres de cimento e vidro nos tem conduzido tão bem por todos estes anos. Por isso usarei os instrumentos que estão ao alcance de todos pra tentar explicar o que digo. Eu e minha mulher trabalhávamos e juntos recebíamos algo não muito superior a dois salários mínimos e meio e num período de dez meses juntamos pra comprar o alvará e o carro.Agora imaginemos quais as possibilidades de um casal juntar hoje em dia o valor de um alvará.Deixo aos mais pacientes a tarefa de verificar quanto tempo seria necessário pra esse casal chegar lá e acrescento um outro dado que também é de fácil comprovação, o valor do carro. Como um carro pra taxi não pode ter mais que dez anos comprei um com oito anos, que me custou bem mais que o valor do alvará. Bem, como já se deram conta todos que me estão lendo, hoje a situação é bem diferente.Se isso me passasse hoje e quisesse ter um taxi teria que recorrer a uma dessas figuras tão bondosas que normalmente chamamos :bancos.
Não falo sôbre isso pra concluir que no passado tudo era melhor. Particularmente acredito que o homen cria a cada momento maneiras e artefatos capazes de nos facilitar a vida e o convívio. O problema é que sempre há uma quantidade de canalhas pra impedir que a maioria tenha acesso a esses confortos.
Mas voltando ao incrível mundo de trinta anos atrás e isso também pode parecer inacreditável, naqueles dias era possível um taxista viver da "rua". Nada de ponto privativo e rádio-taxi eram a Ligue, a Cooper e o Vermelho e Branco. E claro os Luxo,dos hotéis, gente que por certo vivia em outra esfera; seres que às vezes eu via passando uma flanela no Omega e fazendo de conta que taxistas como eu não existiam. Enfim nós, os taxistas, inclusive esses abobados do Luxo, vivíamos no que se poderia considerar um ecossistema.Ou seja cada um cumpria um determinado papel e o resultado final era o equilíbrio.
Daqueles dias sobram recordações que me fazem sentir uma saudade que chega a doer, um montão de bobeiras tão cotidianas e banais, mas que montam um quadro. Quadro de uma vida que já não se pode tocar. O café da manhã era numa padaria do Sumaré, na Alfonso Bovero ou em Pinheiros ,na Fradique. Um café com leite uma coxinha ou uma esfiha e mostarda a gosto é como se pudesse sentir o gosta em minha boca só de pensar.Falar de passageiros é falar do que falam todos os taxistas, a mim também me passaram historias, umas que se poderiam contar e outras que não. Prefiro contar a história de duas zebras que pastavam tranquilamente nas savanas africanas quando pressentem a chegada dos leões e saem em disparada tentando escapar da morte certa.Nesse momento ambas não se dão conta,mas o seu inimigo não é o leão e sim elas mesmas, pois a que correr mais é a que se salvará e começam a competir. A partir daí e por breves instantes, passam a ser inimigas até que os leões acabem com uma delas.
Os anos passaram e meu carro já não era omesmo, a manutenção me comia por uma perna e mais de uma vez passageiros que me faziam sinal, disfarçavam, me deixavam passar e pegavam o taxi que vinha atrás,ou seja, os leões me comeram.Por sorte, ou não, os leões que nos atacam em nossa selva de homens não nos querem ver mortos, nos deixam viver pra que sigamos alimentando seu insaciavel apetite.Não se trata de acusar, se trata de lamentar esse lado mau da natureza do homem, somos criadores e criaturas dessa maldita competição. Os publicitários a vendem como algo bom, os economistas a exaltam como a única salvação pro capitalismo moderno e executivos e empresários a utilizam como chicote no lombo do trabalhador. Vítimas e algozes, zebras e leões se misturam sem saber o que são nem porque agem assim.
Não falo sôbre isso pra concluir que no passado tudo era melhor. Particularmente acredito que o homen cria a cada momento maneiras e artefatos capazes de nos facilitar a vida e o convívio. O problema é que sempre há uma quantidade de canalhas pra impedir que a maioria tenha acesso a esses confortos.
Mas voltando ao incrível mundo de trinta anos atrás e isso também pode parecer inacreditável, naqueles dias era possível um taxista viver da "rua". Nada de ponto privativo e rádio-taxi eram a Ligue, a Cooper e o Vermelho e Branco. E claro os Luxo,dos hotéis, gente que por certo vivia em outra esfera; seres que às vezes eu via passando uma flanela no Omega e fazendo de conta que taxistas como eu não existiam. Enfim nós, os taxistas, inclusive esses abobados do Luxo, vivíamos no que se poderia considerar um ecossistema.Ou seja cada um cumpria um determinado papel e o resultado final era o equilíbrio.
Daqueles dias sobram recordações que me fazem sentir uma saudade que chega a doer, um montão de bobeiras tão cotidianas e banais, mas que montam um quadro. Quadro de uma vida que já não se pode tocar. O café da manhã era numa padaria do Sumaré, na Alfonso Bovero ou em Pinheiros ,na Fradique. Um café com leite uma coxinha ou uma esfiha e mostarda a gosto é como se pudesse sentir o gosta em minha boca só de pensar.Falar de passageiros é falar do que falam todos os taxistas, a mim também me passaram historias, umas que se poderiam contar e outras que não. Prefiro contar a história de duas zebras que pastavam tranquilamente nas savanas africanas quando pressentem a chegada dos leões e saem em disparada tentando escapar da morte certa.Nesse momento ambas não se dão conta,mas o seu inimigo não é o leão e sim elas mesmas, pois a que correr mais é a que se salvará e começam a competir. A partir daí e por breves instantes, passam a ser inimigas até que os leões acabem com uma delas.
Os anos passaram e meu carro já não era omesmo, a manutenção me comia por uma perna e mais de uma vez passageiros que me faziam sinal, disfarçavam, me deixavam passar e pegavam o taxi que vinha atrás,ou seja, os leões me comeram.Por sorte, ou não, os leões que nos atacam em nossa selva de homens não nos querem ver mortos, nos deixam viver pra que sigamos alimentando seu insaciavel apetite.Não se trata de acusar, se trata de lamentar esse lado mau da natureza do homem, somos criadores e criaturas dessa maldita competição. Os publicitários a vendem como algo bom, os economistas a exaltam como a única salvação pro capitalismo moderno e executivos e empresários a utilizam como chicote no lombo do trabalhador. Vítimas e algozes, zebras e leões se misturam sem saber o que são nem porque agem assim.
lunes, 7 de marzo de 2011
MINHA SÃO PAULO
É sábado, a luz do sol entra atrevida pelas janelas do balcão e não me perguntem o porque,pois eu não o saberia dizer, mas me vejo transportado do sofá da sala até a Praça Roosevelt. Pode ser qualquer dia ,inclusive um sábado, pode ser qualquer hora, até mesmo um atardecer; muito embora eu o sinta mais fresco,sim,é isso; é uma manhã e é um domingo.
Estou parado na esquina da praça lendo a Veja que acabo de comprar e pedindo a Deus um passageiro pra salvar meu domingo.Assim vivemos os humanos,rodeados de nossos desejos e prazeres.Caminhando solitários com nossos pequenos e cotidianos problemas. E nada parece interromper nossa particular caminhada, cada vez mais celere rumo aos nossos mais acalentados sonhos..Sonhamos e vivemos e às vezes nos confundimos onde terminam os sonhos e começa nossa vida.
Tamanha confusão também faço com as palavras, agora mesmo é como se me afogasse em uma piscina cheia de letras e sílabas, palavras inteiras, complexas e simples, raras e comuns.Sei lá porque continuo,é como diz a música dos Titãs:..".não sei fazer música ,mas eu faço;não sei cantar as músicas que faço, mas eu canto"...pois eu não sei escrever, mas escrevo.
Enfim, como não me surge nenhum passageiro resolvo dar uma volta pelo Centro, aproveito enquanto me dura o sonho e mato a saudade de São Paulo.Me deu vontade de escrever minha São Paulo,só que aqui cabe uma explicação.A minha São Paulo não é essa que se pode tocar,na qual pisamos, cuspimos e deixamos ver toda nossa pobreza como homens.Não, essa São Paulo que vemos não ama, não chora, não ajuda nem atrapalha, essa é inanimada, é como tantas outras cidade espalhadas pelo planeta.
A São Paulo de que falo é a que temos cada um de nós paulistanos em nossa memória. A minha é a dos passeios na USP, dos poentes de outono, das chuvas impiedosas e das garoas quase carícias. Cada um de nós paulistanos temos uma única, intransferível e inexplicável.
O fato é que o sol já se foi da sala e o vozerio da rua me desperta do meu sonho, não , não tive tempo de dar uma volta pelo Municipal, tchau São Paulo, minha São Paulo.
Sidney Oliveira
Estou parado na esquina da praça lendo a Veja que acabo de comprar e pedindo a Deus um passageiro pra salvar meu domingo.Assim vivemos os humanos,rodeados de nossos desejos e prazeres.Caminhando solitários com nossos pequenos e cotidianos problemas. E nada parece interromper nossa particular caminhada, cada vez mais celere rumo aos nossos mais acalentados sonhos..Sonhamos e vivemos e às vezes nos confundimos onde terminam os sonhos e começa nossa vida.
Tamanha confusão também faço com as palavras, agora mesmo é como se me afogasse em uma piscina cheia de letras e sílabas, palavras inteiras, complexas e simples, raras e comuns.Sei lá porque continuo,é como diz a música dos Titãs:..".não sei fazer música ,mas eu faço;não sei cantar as músicas que faço, mas eu canto"...pois eu não sei escrever, mas escrevo.
Enfim, como não me surge nenhum passageiro resolvo dar uma volta pelo Centro, aproveito enquanto me dura o sonho e mato a saudade de São Paulo.Me deu vontade de escrever minha São Paulo,só que aqui cabe uma explicação.A minha São Paulo não é essa que se pode tocar,na qual pisamos, cuspimos e deixamos ver toda nossa pobreza como homens.Não, essa São Paulo que vemos não ama, não chora, não ajuda nem atrapalha, essa é inanimada, é como tantas outras cidade espalhadas pelo planeta.
A São Paulo de que falo é a que temos cada um de nós paulistanos em nossa memória. A minha é a dos passeios na USP, dos poentes de outono, das chuvas impiedosas e das garoas quase carícias. Cada um de nós paulistanos temos uma única, intransferível e inexplicável.
O fato é que o sol já se foi da sala e o vozerio da rua me desperta do meu sonho, não , não tive tempo de dar uma volta pelo Municipal, tchau São Paulo, minha São Paulo.
Sidney Oliveira
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