O ano era 1991 e por incrível que possa parecer um alvará de taxi valia 600 cruzeiros, eu digo incrível porque às vezes nem eu mesmo acredito nisso. O certo é que isso era pouco dinheiro se comparamos com o que passa hoje. Não quero e nem posso entrar no terreno dos economistas, essa gente sabida que do alto de suas torres de cimento e vidro nos tem conduzido tão bem por todos estes anos. Por isso usarei os instrumentos que estão ao alcance de todos pra tentar explicar o que digo. Eu e minha mulher trabalhávamos e juntos recebíamos algo não muito superior a dois salários mínimos e meio e num período de dez meses juntamos pra comprar o alvará e o carro.Agora imaginemos quais as possibilidades de um casal juntar hoje em dia o valor de um alvará.Deixo aos mais pacientes a tarefa de verificar quanto tempo seria necessário pra esse casal chegar lá e acrescento um outro dado que também é de fácil comprovação, o valor do carro. Como um carro pra taxi não pode ter mais que dez anos comprei um com oito anos, que me custou bem mais que o valor do alvará. Bem, como já se deram conta todos que me estão lendo, hoje a situação é bem diferente.Se isso me passasse hoje e quisesse ter um taxi teria que recorrer a uma dessas figuras tão bondosas que normalmente chamamos :bancos.
Não falo sôbre isso pra concluir que no passado tudo era melhor. Particularmente acredito que o homen cria a cada momento maneiras e artefatos capazes de nos facilitar a vida e o convívio. O problema é que sempre há uma quantidade de canalhas pra impedir que a maioria tenha acesso a esses confortos.
Mas voltando ao incrível mundo de trinta anos atrás e isso também pode parecer inacreditável, naqueles dias era possível um taxista viver da "rua". Nada de ponto privativo e rádio-taxi eram a Ligue, a Cooper e o Vermelho e Branco. E claro os Luxo,dos hotéis, gente que por certo vivia em outra esfera; seres que às vezes eu via passando uma flanela no Omega e fazendo de conta que taxistas como eu não existiam. Enfim nós, os taxistas, inclusive esses abobados do Luxo, vivíamos no que se poderia considerar um ecossistema.Ou seja cada um cumpria um determinado papel e o resultado final era o equilíbrio.
Daqueles dias sobram recordações que me fazem sentir uma saudade que chega a doer, um montão de bobeiras tão cotidianas e banais, mas que montam um quadro. Quadro de uma vida que já não se pode tocar. O café da manhã era numa padaria do Sumaré, na Alfonso Bovero ou em Pinheiros ,na Fradique. Um café com leite uma coxinha ou uma esfiha e mostarda a gosto é como se pudesse sentir o gosta em minha boca só de pensar.Falar de passageiros é falar do que falam todos os taxistas, a mim também me passaram historias, umas que se poderiam contar e outras que não. Prefiro contar a história de duas zebras que pastavam tranquilamente nas savanas africanas quando pressentem a chegada dos leões e saem em disparada tentando escapar da morte certa.Nesse momento ambas não se dão conta,mas o seu inimigo não é o leão e sim elas mesmas, pois a que correr mais é a que se salvará e começam a competir. A partir daí e por breves instantes, passam a ser inimigas até que os leões acabem com uma delas.
Os anos passaram e meu carro já não era omesmo, a manutenção me comia por uma perna e mais de uma vez passageiros que me faziam sinal, disfarçavam, me deixavam passar e pegavam o taxi que vinha atrás,ou seja, os leões me comeram.Por sorte, ou não, os leões que nos atacam em nossa selva de homens não nos querem ver mortos, nos deixam viver pra que sigamos alimentando seu insaciavel apetite.Não se trata de acusar, se trata de lamentar esse lado mau da natureza do homem, somos criadores e criaturas dessa maldita competição. Os publicitários a vendem como algo bom, os economistas a exaltam como a única salvação pro capitalismo moderno e executivos e empresários a utilizam como chicote no lombo do trabalhador. Vítimas e algozes, zebras e leões se misturam sem saber o que são nem porque agem assim.
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