domingo, 13 de marzo de 2011

ZEBRAS E LEÕES

O ano era 1991 e por incrível que possa parecer um alvará de taxi valia  600 cruzeiros, eu digo incrível   porque às vezes nem eu mesmo acredito nisso. O certo é que isso era pouco dinheiro se comparamos  com o que passa hoje. Não quero e nem posso entrar no terreno dos economistas, essa gente sabida que do alto de suas    torres de cimento e vidro nos tem conduzido tão bem por todos estes anos.  Por isso  usarei os instrumentos que estão ao alcance de todos pra  tentar explicar o que digo. Eu e minha mulher  trabalhávamos  e juntos recebíamos algo não muito superior a dois salários mínimos e meio e num período de dez meses juntamos pra comprar  o  alvará e o carro.Agora imaginemos quais as possibilidades de um casal  juntar  hoje em dia o valor de um alvará.Deixo aos mais pacientes a tarefa de verificar quanto tempo seria necessário pra  esse casal  chegar lá e acrescento um  outro dado que também  é de fácil comprovação, o valor do carro.     Como um carro pra taxi não pode ter mais que dez anos comprei um com oito anos, que me custou bem mais que o valor do alvará. Bem, como já se deram conta todos que me estão lendo, hoje a situação é bem diferente.Se isso me passasse hoje e quisesse ter um taxi teria que recorrer a uma dessas figuras tão bondosas que normalmente chamamos :bancos.

Não falo sôbre isso pra concluir que  no passado tudo era melhor. Particularmente acredito que o homen cria a cada momento maneiras e artefatos capazes de nos facilitar a vida e o convívio. O problema é  que sempre    há uma quantidade de canalhas pra impedir que a maioria tenha acesso a esses confortos.

Mas voltando ao incrível mundo de trinta anos atrás e isso também  pode parecer  inacreditável, naqueles  dias era possível  um taxista viver da "rua". Nada  de  ponto  privativo  e  rádio-taxi  eram  a Ligue, a  Cooper  e  o Vermelho e Branco. E claro os Luxo,dos hotéis, gente que por  certo vivia em outra esfera; seres que às vezes eu via passando uma flanela no Omega e fazendo de conta que taxistas como eu não existiam.  Enfim  nós,  os   taxistas, inclusive esses abobados do Luxo, vivíamos no que se poderia considerar um  ecossistema.Ou seja cada um cumpria um determinado papel e o resultado final era o equilíbrio.

Daqueles dias sobram recordações que me fazem sentir uma saudade que chega a doer, um montão de bobeiras tão cotidianas e banais, mas que montam um quadro. Quadro de uma vida que já não se pode tocar. O café  da manhã era numa padaria do Sumaré, na Alfonso Bovero ou em Pinheiros ,na Fradique. Um café com leite uma   coxinha  ou uma esfiha e mostarda a gosto é como se pudesse sentir o gosta em minha boca só de pensar.Falar de passageiros é falar do que  falam todos os taxistas, a mim também me passaram historias, umas que se poderiam contar e outras que não. Prefiro contar a história de duas zebras que pastavam tranquilamente nas savanas africanas quando pressentem a chegada dos leões e saem em disparada tentando escapar da morte certa.Nesse momento ambas não se dão conta,mas o seu inimigo não é o leão e sim elas mesmas, pois a que correr mais é a que se salvará e começam a competir. A partir daí e por  breves instantes, passam a ser inimigas até que os leões acabem com uma delas.

Os anos passaram e meu carro já não era omesmo, a manutenção me comia por uma perna e mais de uma vez passageiros que me faziam sinal, disfarçavam, me deixavam passar e pegavam o taxi que vinha atrás,ou seja, os leões me comeram.Por sorte, ou não, os leões que nos atacam em nossa selva de homens  não nos querem ver mortos, nos deixam viver pra que sigamos alimentando seu insaciavel apetite.Não se trata de acusar, se trata de lamentar esse lado mau da natureza  do homem, somos  criadores e  criaturas dessa maldita competição. Os publicitários a vendem como algo bom, os economistas a exaltam como a única salvação pro capitalismo moderno e executivos e empresários a utilizam como chicote  no lombo do trabalhador. Vítimas e algozes, zebras e leões se misturam sem saber o que são   nem porque agem assim.

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