Não é mais que uma sombra, seguramente estou dormindo e isso é um sonho.Tenho certeza que essa sensação já deve ter ocorrido a qualquer um de voces. Faz parte da gente, vem junto com a codificação dos genes.Não, eu não estou louco ou alucinando.Me levanto e fico uns minutos sentado na beira da cama, faz um pouco de frio, mas estou suando.Já sei, é o começo de uma gripe; tomo uma aspirina e volto pra cama.
Hesito um pouco em fechar os olhos, confesso que tenho medo.Medo de algo que não é mais que uma sombra.Bem, todos sabemos que a sombra se produz pelo efeito da luz em algo sólido, real, daí que temo a essa sombra.
Não quero dormir, não quero fechar os olhos, mas o dia foi largo, um desses dias que só de vez em quando acontecem; dez horas de trabalho, um montão de corridas e nenhum problema.Só isso já deveria valer uma noite de sono bem dormida.Tento pensar meu dia, refazê-lo desde seu principio só pra enganar o sono.Mas, como era de se esperar perco a batalha e num instante me vejo no alto de uma montanha, é um fin de tarde, ainda dá pra ver o sol se pondo, sobre uma rocha ovalada há um homem sentado que comtempla o lento e luminoso poente.
Caminho em sua direção, mas estranho, não me aproximo. Peço ajuda baixinho não sei bem porque , quando surge ao meu lado um homem que me estende a mão. Já não sou adulto, sou o menino que fui e me socorro dessa mão caridosa. Dá pra sentir os calos de uma mão de trabalhador, tento ver seu rosto, mas não consigo. Penso em umas mãos parecidas que conheci faz muitos anos.
De novo me encontro sozinho e o por do sol parece ir em marcha lenta, diante de mim se abre um caminho uma estreita alameda que leva ao homem da rocha. Ele segue ali impassível como a esperar por mim, dessa vez saio correndo, mas afobado que sempre fui, tropeço em meus passos de menino e caio sem avançar um metro sequer.Choro, choro e choro e do nada outra vez surgem aquelas mãos rudes que me secam as lágrimas,sinto seus calos como carícias e seus dedos por entre meus cabelos.Me recomponho pra agradecer-lhe a atitude, não lhe vejo o rosto e quando tento falar não consigo. Será possível que não vou conseguir agradecer a esse homem o imenso conforto que ele me esta dando nesse sonho tão intenso?Pois é , ele já desapareceu outra vez.
Me sinto cansado e me deixo cair sobre o gramado que tenho ao meu redor, um estranho e familiar gramado, como o de minha casa na infância.Mas já não sou mais o menino, agora sou eu e minha rugas, meu pouco cabelo e meu corpo cansado. Cansado e triste, triste como seus olhos naquele dia. Tantos anos vivendo juntos e só agora me dou conta de que jamais tivemos uma troca direta de olhares, de palavras nem digo,pois parecem ainda mais difíceis. Mas naquele dia, naquele instante nossos olhres se encontraram.
Passava da meia-noite e o Pronto Socorro estava lotado, ele seria levado até a ambulância pra buscar um hospital com um leito vago, foi nesse trajeto que nos cruzamos, ele numa cadeira de rodas e eu aturdido e incapaz, ele chorava e seu olhar me pedia algo, seu último olhar , meu único olhar.
Agora o homem da pedra se levanta e vem em minha direção, conheço esse andar e agora advinho sua figura. Ele me abraça forte, como nunca nos abraçamos, penso dizer-lhe algo, mas não consigo. Sinto como se devesse lhe pedir desculpas, mas ele me sorri e se fasta, antes de desaparecer se volta e me acena. Tchau pai, um dia a gente se vê.
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